Ego
O eu é separação do que não é separado. Assume para si como seu o que não é senão partilha. Na infância essa função se torna, na ausência de outras referências, tirania. Não são as crianças tiranas, aqueles que nunca deixaram a infância e não se doam é que as acusam de sê-lo. Leva tempo para conferir dignidade ao outro, para perceber que tudo quanto sou ou desejaria passa pelo outro. O eu, porém, parece mais perto de minha carência e ser parece uma exigência de atenção. No espelhamento, então, se forma uma imagem e tomo a ela como se fosse o que sou, esta é, porém, apenas o eu, aquilo a que estou atento, o que me faz esquecer de tudo o mais para concentrar-me no limitado de minha percepção própria. Não é possível a alguém sozinho escapar dessa condição de alheamento. Por que ela se perpetua, então, se há tanta gente? Similia similibus apenas o que parece-nos atraente nos atrai. Leva tempo para o universal se formar em nós, em alguns não se forma nunca. Formar-se é concluir-se uma etapa. A seguinte não vem se não se passa aquela. Para onde, enfim? Ó força divina, extermina essa mente que quer a morte e o jugo! Ai, me esqueço que tu não queres isso, tornar-se esse algoz que eu mesmo instituo para mim. Brilha em mim, aquece e rompe essa teia, esse véu que teci entre tu e "eu", desfaz o erro e o engano do descaminho que tomei. Achei que era bom, e nem prazeroso era. Os guias vieram e já não vem. Que alguém se eleve e os traga de volta. Que deserto é esse? Onde está esse alguém? Sei que há, pois por outro motivo não haveria essa plataforma que quer nos terminar porque não queremos ser, nem ao outro deixar viver. Sobrepuja o mal no todo. O bem precisa concentrar-se em alguma parte para brilhar. Quão distantes daquela região em que é forte a presença, em que ela não é expulsa por uma covardia em olhá-la face a face. Não foste tu que desviasse o olhar. Estás sempre aí, aí onde estás. Nossa face quando se volta para o umbigo afasta consigo o cosmo de teu abraço. Canta. Cantem os teus porque não te vemos. Faz surgir o aroma porque não te ouvimos. Vinde como uma aparição no sonho e nos convida a voltar. Perdemos a direção e até mesmo o começo do caminho está confundido com outros nos quais tu não vais. Ai a casa, a casa gloriosa, que não foi feita por mãos humanas, que não decai como as outras casas! Quando virei a teus kerubi sussurrar o passe? Que sendas, que veredas para além desse sonho? Que os povos passem ao fio delas e sejam, porque já não sustentam mais o não sê-lo. O ar se espraia, o sopro se desliga. Sopra vida na alma para que desperte e seja, o seco pó espreita e tem sono.
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